65 anos-luz da terra, um cientista de um mundo além um dia desenvolveu uma tecnologia que finalmente o permitia observar com detalhes outras estrelas e seus planetas. Fascinado pela própria invenção, passou a desvendar a vizinhança cósmica. Viu jovens estrelas despertarem na escuridão, banhando suas vizinhanças com a primeira luz de suas vidas, enquanto viu outras cederam ao próprio corpo celestial após milênios de existência, exaustas após exaurir seus próprios cernes. Passou por mundos envoltos em atmosferas densas, que escondiam em suas entranhas a química da transformação. Viu outros gelados, silenciosos em sua própria solidão, onde cada dia era apenas um toque leve de claridade, onde mal se poderia distinguir as formas das sombras desenhadas pela luz.
Seguiu buscando além, até que passou a investigar mais uma das estrelas comuns que já haviam captado seus olhos. Observou primeiramente sua totalidade de planetas, até que um em específico chamou sua atenção. Azul, pequenino, frágil flutuando no espaço sem fim. Tomado por uma intuição, resolveu observar com mais cuidado aquele pequeno mas gracioso mundo. E enorme foi sua surpresa ao perceber que, assim como o seu próprio mundo, aquele também era povoado de vida.
Viu enormes estruturas se espalhando por quilômetros a fio. "Ah! Eles também têm cidades feitas da rocha do chão que pisam!", pensou ele, fascinado com as diferenças e semelhanças daquela espécie. Viu um prédio branco, e indo ao máximo da potência de seu aparelho astronômico, percebeu que um daqueles seres acabara de nascer. Não podia ouvir, mas tinha certeza de que aquele ser pequenino estava neste momento gritando. Demarcou a distância em seu mapa estelar até aquele pequeno mundo, 65 anos que a luz daquele planeta levava até chegar a ele. Quem quer que fosse aquele ser pequenino, ele resolveu que iria testemunhar o seu desenvolvimento pelo tempo que viria.
Logo percebeu que aquela era uma espécie que envelhecia muito mais rápido que a sua própria. Em 5 anos daquele mundo estranho, ele já havia crescido algumas vezes o seu próprio tamanho. Em 10, já tinha aprendido a se mover naquele líquido azul que preenchia a maior parte daquele mundo cheio de vida. O viu vários dias dentro de uma construção onde haviam outros de sua idade, aparentemente era onde aquelas criaturas aprendiam sua própria ciência.
Testemunhou as vitórias e as perdas daquela jovem criatura. Viu como ele se despediu de seus progenitores quando partiram, e como a dor da separação assombrou aquela mente por vários de seus anos. Viu aquele corpo estranho cair e levantar, tombando pouco a pouco ao efeito do tempo, tal qual as estrelas que havia observado antes de ser arrebatado pelo fascínio com aquele pequeno mundo.
Conforme o tempo passara, viu aquele pequeno indivíduo, naquele pequeno mundo, desacelerar aos poucos, até que finalmente caíra em uma cama. Não sabia ao certo o que ele tinha, mas viu que sua cabeça agora já não era mais coberta, revelando a pele abaixo. Viu aqueles que eram pessoas do seu convívio irem e virem, enquanto os olhos daquela criatura se tornavam como uma nave prestes a explorar o cosmo. A respiração pesada, os dias se arrastando em sua face cheia de dor. E ainda assim, ele o via encontrando motivos para sorrir.
Um dia enfim, aqueles olhos se fecharam. Em redor em dor, aqueles que o cientista tinha observado estarem em companhia daquele que parecia ser alguém que construiu em redor de si um círculo de outros que o amavam. Viu aquele corpo, agora imóvel, ser removido daquele leito, e colocado em uma estrutura marrom, que o acompanhou para dentro do solo. "Vivem dentro de estruturas feitas da própria terra, e depois de partirem, continuam a morar no interior dela", pensou o cientista, sem saber descrever como aquilo o fazia sentir.
Dada a curta existência daquela criatura, não pôde deixar de sentir uma certa tristeza e melancolia por uma vida tão curta que passou diante de seus olhos. Desligou sua máquina e pôs-se por um tempo em reflexão, sem ser capaz de olhar para o céu nos tempos que se seguiram. Passou ciclos incontáveis assim, até que um dia, já tendo sua própria prole, levou seu filho ao seu laboratório pois ele estava curioso pelo funcionamento de seu aparelho quase mágico.
O ligou mais uma vez, enquanto o filho se posicionava para viajar de encontro às estrelas. Não podia deixar de sentir um certo amargor existencial dentro de si, enquanto seu filho mal se continua de empolgação. Tudo pronto, começou a mostrar a seu filho aqueles eventos que ele mesmo havia desvendado pela primeira vez certo tempo atrás. Percebeu novamente o borbulhar das estrelas que se sustentavam em meio aos céus, e os mundos que as rodeavam. Sentiu a alegria nas falas de seu filho, enquanto ele percebia a riqueza de diversidade do cosmo onde tudo existia.
E ali, em meio a esse frenesi de contemplação perante ao firmamento, que ele começou a entender. Não era o tamanho, o poder das estrelas ou o quão longeva ou não suas vidas eram que davam sentido à sua existência. Tampouco os mundos que surgiram em volta delas, fossem eles gelados ou de fogo, fossem essas estrelas gigantes ou anãs. Assim como aquela vida que ele testemunhou, a beleza e o sentido de tudo que havia estava no simples fato de sua própria existência. Porque no meio daquela escuridão que a tudo circundava, ele percebeu finalmente o milagre que era a luz que chegava aos seus olhos, advinda de tudo que já fora, era e ainda seria no meio daquela vastidão.
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