quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O cientista

 


65 anos-luz da terra, um cientista de um mundo além um dia desenvolveu uma tecnologia que finalmente o permitia observar com detalhes outras estrelas e seus planetas. Fascinado pela própria invenção, passou a desvendar a vizinhança cósmica. Viu jovens estrelas despertarem na escuridão, banhando suas vizinhanças com a primeira luz de suas vidas, enquanto viu outras cederam ao próprio corpo celestial após milênios de existência, exaustas após exaurir seus próprios cernes. Passou por mundos envoltos em atmosferas densas, que escondiam em suas entranhas a química da transformação. Viu outros gelados, silenciosos em sua própria solidão, onde cada dia era apenas um toque leve de claridade, onde mal se poderia distinguir as formas das sombras desenhadas pela luz.

Seguiu buscando além, até que passou a investigar mais uma das estrelas comuns que já haviam captado seus olhos. Observou primeiramente sua totalidade de planetas, até que um em específico chamou sua atenção. Azul, pequenino, frágil flutuando no espaço sem fim. Tomado por uma intuição, resolveu observar com mais cuidado aquele pequeno mas gracioso mundo. E enorme foi sua surpresa ao perceber que, assim como o seu próprio mundo, aquele também era povoado de vida.

Viu enormes estruturas se espalhando por quilômetros a fio. "Ah! Eles também têm cidades feitas da rocha do chão que pisam!", pensou ele, fascinado com as diferenças e semelhanças daquela espécie. Viu um prédio branco, e indo ao máximo da potência de seu aparelho astronômico, percebeu que um daqueles seres acabara de nascer. Não podia ouvir, mas tinha certeza de que aquele ser pequenino estava neste momento gritando. Demarcou a distância em seu mapa estelar até aquele pequeno mundo, 65 anos que a luz daquele planeta levava até chegar a ele. Quem quer que fosse aquele ser pequenino, ele resolveu que iria testemunhar o seu desenvolvimento pelo tempo que viria.

Logo percebeu que aquela era uma espécie que envelhecia muito mais rápido que a sua própria. Em 5 anos daquele mundo estranho, ele já havia crescido algumas vezes o seu próprio tamanho. Em 10, já tinha aprendido a se mover naquele líquido azul que preenchia a maior parte daquele mundo cheio de vida. O viu vários dias dentro de uma construção onde haviam outros de sua idade, aparentemente era onde aquelas criaturas aprendiam sua própria ciência. 

Testemunhou as vitórias e as perdas daquela jovem criatura. Viu como ele se despediu de seus progenitores quando partiram, e como a dor da separação assombrou aquela mente por vários de seus anos. Viu aquele corpo estranho cair e levantar, tombando pouco a pouco ao efeito do tempo, tal qual as estrelas que havia observado antes de ser arrebatado pelo fascínio com aquele pequeno mundo.

Conforme o tempo passara, viu aquele pequeno indivíduo, naquele pequeno mundo, desacelerar aos poucos, até que finalmente caíra em uma cama. Não sabia ao certo o que ele tinha, mas viu que sua cabeça agora já não era mais coberta, revelando a pele abaixo. Viu aqueles que eram pessoas do seu convívio irem e virem, enquanto os olhos daquela criatura se tornavam como uma nave prestes a explorar o cosmo. A respiração pesada, os dias se arrastando em sua face cheia de dor. E ainda assim, ele o via encontrando motivos para sorrir.

Um dia enfim, aqueles olhos se fecharam. Em redor em dor, aqueles que o cientista tinha observado estarem em companhia daquele que parecia ser alguém que construiu em redor de si um círculo de outros que o amavam. Viu aquele corpo, agora imóvel, ser removido daquele leito, e colocado em uma estrutura marrom, que o acompanhou para dentro do solo. "Vivem dentro de estruturas feitas da própria terra, e depois de partirem, continuam a morar no interior dela", pensou o cientista, sem saber descrever como aquilo o fazia sentir. 

Dada a curta existência daquela criatura, não pôde deixar de sentir uma certa tristeza e melancolia por uma vida tão curta que passou diante de seus olhos. Desligou sua máquina e pôs-se por um tempo em reflexão, sem ser capaz de olhar para o céu nos tempos que se seguiram. Passou ciclos incontáveis assim, até que um dia, já tendo sua própria prole, levou seu filho ao seu laboratório pois ele estava curioso pelo funcionamento de seu aparelho quase mágico.

O ligou mais uma vez, enquanto o filho se posicionava para viajar de encontro às estrelas. Não podia deixar de sentir um certo amargor existencial dentro de si, enquanto seu filho mal se continua de empolgação. Tudo pronto, começou a mostrar a seu filho aqueles eventos que ele mesmo havia desvendado pela primeira vez certo tempo atrás. Percebeu novamente o borbulhar das estrelas que se sustentavam em meio aos céus, e os mundos que as rodeavam. Sentiu a alegria nas falas de seu filho, enquanto ele percebia a riqueza de diversidade do cosmo onde tudo existia. 

E ali, em meio a esse frenesi de contemplação perante ao firmamento, que ele começou a entender. Não era o tamanho, o poder das estrelas ou o quão longeva ou não suas vidas eram que davam sentido à sua existência. Tampouco os mundos que surgiram em volta delas, fossem eles gelados ou de fogo, fossem essas estrelas gigantes ou anãs. Assim como aquela vida que ele testemunhou, a beleza e o sentido de tudo que havia estava no simples fato de sua própria existência. Porque no meio daquela escuridão que a tudo circundava, ele percebeu finalmente o milagre que era a luz que chegava aos seus olhos, advinda de tudo que já fora, era e ainda seria no meio daquela vastidão. 

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Sobreviventes.

 


Crescemos ouvindo que devemos batalhar e seguir em frente. Em todas as intempéries da vida, confiar naquilo que temos fé e não se deixar abalar. Somos ensinados que cada desafio deve ser encarado como uma meta, uma história de triunfo para ser contada posteriormente. Seja sozinhos ou seja em conjunto, vivemos de objetivo em objetivo, sejam aqueles que escolhemos para nós, sejam eles os que o destino nos traz.

E com isso o tempo passa. Deixamos a primavera da juventude, e antes de percebermos estamos sob um sol em ápice de verão. Mais experientes, mais calejados, talvez até um pouco mais sábios. Os olhos agora já um pouco levemente cansados das luzes das cidades e dos ventos das florestas lacrimejam de tempos em tempos. Mas ainda assim, sabemos que todo dia é ao mesmo tempo um presente e um desafio. Já tivemos nossas vitórias, e também nossas derrotas. Nossas despedidas e nossos recomeços.

O curioso é que nesse ponto também aprendemos uma verdade escondida em tudo que nos foi ensinado sobre superação. Não são apenas os desafios que derrotamos que ficam para trás. Aos poucos, vemos também aqueles que amamos ficando ao longo da es



trada. Quando nos ensinaram sobre a glória da superação, o triunfo sobre os inimigos, não é mencionado a brevidade daqueles que escolhemos para serem nossos companheiros de jornada. 

Como lidar com a magnitude de uma existência compartilhada quando ela se transforma em memória? Quando lugares visitados só podem te ligar através do túnel turbulento do tempo e do espelho turvo das memórias? O que fazer quando o coração lembra mais que a mente? Se o laço invisível da amizade ainda nos puxa fazendo a cabeça olhar para trás, só para conferir se aquela pessoa realmente não vai surgir de novo na última curva da vida que fizemos?

Sim, seria mais fácil esquecer e deixar tudo desaparecer nas mãos implacáveis do tempo. Mas deixar isso acontecer também abrir mão de parte de si. De parte da própria história. Com isso, uma ideia surge na mente. Simples, mas poderosa e de certa forma extremamente lógica. Resignada, mas sem ser conformista. Porque assim como os aprendizados das batalhas que vencemos precisam permanecer conosco, também o precisam as vivências cheias de amor e alegria, mesmo quando elas se misturam ao amargo da saudade. Talvez seja esse um possível caminho. Entender que, em parte, a vida é isso. Que ser um sobrevivente da própria história não se trata de apenas sobreviver ao que precisamos ou queremos deixar para trás. Mas que também nos transforma em sobreviventes dos que amamos, e as cicatrizes curadas no coração será o que levaremos deles até o fim dos nossos dias. 

domingo, 10 de março de 2024

Meandros na paisagem




Curvas de viagem
Calmas e tranquilas
Mal sentem o tempo e sua passagem
Sinuosas, em silêncio
Testemunhas já antigas
São da história um compêndio 

Espelho deste céu 
Entre luas e sóis mil
És tela e rosto debaixo de um véu
Cenário e personagem 
Por caminhos que você abriu
És protagonista e paisagem

Quão belas são suas curvas 
Mesmo quando chega a tempestade
E seu sangue ferve em cores turvas
Fúria imponente mas também contida
Quando alargas os teus braços
Prova que a força também cabe em tua face tranquila

Já um velho companheiro
Desde sempre meu dom diário
Em ser piloto e passageiro
Toco por ti este meu barco
Dia após dia
Ninado pelo seu embalo

Vez ou outra te vejo pestanejar
Um bocejo de sono
No meio da noite a cintilar
Aprecio em silêncio essa tua presença 
Até que encontro também em mim
As sinuosas voltas da minha própria existência 

domingo, 3 de novembro de 2019

Canarinhos no quintal



Cheiro de mate quentinho, aquele pote de biscoitos na geladeira. Um filme para distrair durante a tarde, e alguém sentado na cadeira da sala. Hora da escola, "vai com Deus, meu filho!"
Uma imagem de Nossa Senhora Aparecida na mesinha do quarto, aquele manto azul cujo amor de mãe só cresceu e se fez também vó. Passarinhos cantando na casa, e cachorros latindo no quintal. Presentes de Natal em 3 de dezembro, "E eu lá vou esperar até Natal pra ver se ele gostou?"
Conversa com as vizinhas no pé do portão, uma visita naquela amiga da rua do lado. Pernas boas de andar, de juntar histórias pra contar. Farra no mercado, puxões de orelha aqui e ali. Aqueles trocadinhos passados escondidos pra ninguém ver com o olhar vigiando a cena do "crime". Abraço gostoso de aniversário, crescer e te ver ir ficando cada vez menor, enquanto ao mesmo tempo o espírito se tornava cada vez mais e mais livre.
Hoje o dia foi frio e não teve chá-mate com biscoitos da geladeira. Eu olhei e vi uma sombra azul, era aquele manto sagrado na mesinha do quarto abraçando o céu em abraço pra te dizer "bem-vinda". E lá bem ao longe, vi que os canarinhos na gaiola ficaram em silêncio por um momento pra te ouvir cantando enquanto ia ao céu. Virei menino de novo, e quis seu abraço. Primeiro senti o ar vazio em minha volta, mas então olhei pra dentro de mim e senti sua vozinha acalentando meu coração. "Chora não, meu filho, que só vou ali e já volto". E enquanto sentia de volta aquele abraço conhecido, voltei a prestar atenção e ouvir que neste momento, os canarinhos do quintal também tinham voltado a cantar.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Despedida



Se era alegria
Se era fraternidade
Se era parceria
Hoje sobrou a saudade

Se era amor
Se era lealdade
Se era ardor
Hoje me consome a incredulidade

Era mar que carrega areia
Era a palmeira do oásis do deserto
Era camponês que o chão semeia
Era a chuva que vinha definir o destino incerto

Como rostos que vêm e vão
Anônimos da massa da cidade
E quem eram hoje amanhã já não o serão
Linha de metrô findada, nesse caminho já não há passagem

Escolas que logo se irá deixar
São os aviões se tornando pequenos no céu
São as casas onde já não se pode mais morar
Cavalos que não voltam depois do giro do carrossel

Filmes que se tornam descoloridos
Escudos cujos brasões já não tem mais brilho
Pontes que já sucumbem aos anos transcorridos
Campos de onde já não se nasce mais o milho

O sol que se foi sem ter aparecido
O batom que perdeu seu carmim
Sem razão, sem sentido
Sem começo, também sem fim




segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Nota de explicação



Há bastante tempo não apareço por aqui. Sempre gostei de manter a autenticidade do que escrevo, e por um tempo tudo esteve um pouco nebuloso. Muitas decisões, desafios, decepções e também vitórias. Sinto que agora voltei a ter um pouco mais de fôlego para não apenas entender tudo ao meu redor, mas também dentro de mim, e assim organizar meus pensamentos em palavras para poder compartilhar aqui. 
Me sinto bem feliz de conseguir isso, e por isso decidi voltar a este meu antigo blog. Não sei ainda com qual frequência escreverei, acho que este vai ser um ritmo que vai se definir por si só, assim como foi antigamente. Porém mal posso esperar para poder voltar a compartilhar aqui o mesmo aprendizado, esperança e lições que permearam minha vida nesses últimos anos.
Um abraço de coração.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Anônimo

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Palavras sussurradas
Confissões no escuro trocadas
O segredo da alma confidente
Que já não deixa revelar a pequena chama ardente
Pois ao menor sinal de vida
Sopros atacam até que esteja extinguida

Movendo-se nos cantos das paredes
Fazendo de trilhas de terra vermelhos tapetes
Confiando melhor e mais fiel companheiro
Aquela silenciosa imagem refletida no espelho
Pensamentos como em Júpiter em turbilhão
Mente espessa quase ao alcance das próprias mãos

Acenos fugidios que vão para o além
Enquanto para trás fica cada vez mais ninguém
Como dente de leão que depois do sopro se fez vazio
Das águas já sem nascente que não descem mais o rio
Bandeiras brancas como que a vida tentam convencer
Essa guerra cruel de uma vez por todas arrefecer

E enquanto friamente continua o pêndulo a se mover
Paralisa o tempo lentamente tudo que outrora conseguia se mover
Memórias furtivas antes vivas no esquecimento vêm a cair
Levando consigo a sutileza da alegria que logo dantes vivia ali
Tal qual eclipe que o dia vem exterminar
Mas que de longo é, se perde a fé de que um dia ele venha a terminar

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A trilha do gênio



"Está vendo aquela nuvem lá?__ perguntou a senhora, enquanto caminhava ao lado do pequeno garoto, que andava entretido pelas plantas à margem da trilha.
Qual?__ perguntou ele, tentando identificar algo em especial dentre as formas brancas espalhadas pelo azul do céu de meio dia.
Aquela longa, que ta subindo de trás do morro.__ respondeu ela, apontando com o dedo para uma que se assemelhada a uma coluna saindo de trás do horizonte.
Sim, estou! Que grande, né?__ disse o menino, enquanto refletia sobre como aquela nuvem parecia uma trilha, que se alargava quando ficava mais alta.
Sim, ela é do gênio que sai da terra e vem ver as coisas que a gente está fazendo, e ajudar com o que desejamos.__ explicou a senhora, chamada Yolanda, enquanto caminhava sob o sol escaldante do interior de Minas.
É mesmo?__ se surpreendeu o garoto, tentanto enxergar o gênio no topo da coluna.
Sim! E se você for bonzinho, o gênio vai sempre vir te ajudar!__ completou ela, divertindo-se com a expressão ao mesmo tempo curiosa e incrédula do pequeno garoto, que lá pelos seus cinco, seis anos, ainda fantasiava o seu próprio mundo cheio de coisas invisíveis espalhadas em todo lugar.
Tanto tempo depois, o pequeno garoto cresceu, e aprendeu na escola que as trilhas do gênio eram aviões passando pela linha do horizonte acima de nós. A senhora, levada pelas onda do oceano do tempo, hoje é parte de suas memórias. 
Às vezes, caminhando por trilhas em redor da cidade, olho para cima e por um instante reencontro aquele pequeno garoto. Ele, que ainda vive e se questiona sobre a magia que reina sobre o mundo, consegue me fazer crer por um momento que sim, o gênio está lá, bem no topo da coluna branca, observando o que fazemos cá embaixo. Paro por um momento e, antes de recomeçar a caminhar, penso que ela, aquela alma amiga e carinhosa dos tempos de infância na verdade é um dos gênios que voam por aí, ainda espalhando bondade com aquela mesma resiliência de sempre. Ao longe soa o latido de um cachorro e, desperto novamente para a realidade, continuo caminhando, em pazes com o pequeno que ainda sonha com as nuvens brancas do céu.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Perdão


Relógio a correr
Vida que se esvai como o sol ao entardecer
Crianças que crescem e se vão
Dias que se acabam e apenas memória agora serão

Um show onde a banda já se foi
Uma prova de escola onde não há chance de tentar depois
Trajetos para viagens que já foram feitas
Crimes solucionados depois de investigadas todas suspeitas

Portas destrancadas que lá atrás não se abriram
Mãos fortes demais contra aqueles que a elas resistiram
Erros de construção que a fundação inteira por terra fizeram cair
Olhos marejados buscando dar sentido ao novo caminho que são obrigados a seguir

Noites em claro pelo descanso a lutar
Sonhos velhos de criança que jamais realidade puderam se tornar
Medo e angústia ainda a perseguir
Tremores secundários que por toda parte ainda se pode sentir

Janelas que hoje ainda se quebram
Por explosões passadas que ainda reverberam
Trazendo consigo os uivos de outrora
Como se ele ainda estivessem presente aqui agora

Em meio a projetos e ruínas começo a entender
O lado sombrio que há em viver
Nessa dolorosa tarefa que é recomeçar
Quando terremotos passados suas bases ainda vêm minar

Minuto a minuto tentando de novo acertar
Cada sonho que aquelas mãos violentas sem piedade vieram roubar 
Ao mesmo tempo sabendo que aquilo tudo essas mesmas mãos tentam consertar
Respiro fundo e concluo comigo mesmo
Que o perdão não é um momento que faz todas tristezas apagar
É um exercício a repetir toda vez que uma bala perdida do passado vier a te alcançar

segunda-feira, 27 de março de 2017

Reconciliação





Como de um sonho acordar
E a primeira luz do dia poder contemplar
Como na pele o primeiro raio de sol vir a aquecer
Com o toque gelado do vento sentir a pele estremecer

Sair a caminhar
Pelas mesmas ruas de sempre com atenção contemplar
Incerto se é nelas que algo mudou
Enquanto não prestava atenção ao tempo que se passou

Aos poucos a cantiga antiga na cabeça deixa de ressoar
Surgindo espaço para que nova música venha a se apresentar
A escuridão e rigidez do pensamento aos poucos se desfazem
Como renovada na primavera se encontram uma verde pastagem

Um sentimento que ganha forma e força
Amor pela vida, não a antiga mas peça que ainda é moça
Quase invisíveis os fios podem ser vistos a se dissipar
Amarras entranhadas até o infinito que agora lá já não vão mais estar

Sem grandes sagas de aventuras, ou jornadas de herói
Apenas um cotidiano comum, onde a vida humana se constrói
E pela primeira vez em muito tempo gasto em memórias a visitar
O novo parece mesmo confiável, um amigo a abraçar

Assim se repensa a jornada pelo caminho
Sem obrigações ou febre pelo destino
Aonde depois de uma batalha que fez a base de seu universo se abalar
Passado, presente e futuro se reconciliam para novamente juntos caminhar

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Portas abertas



Risadas compartilhadas. Noite sem fim confabulando planos mirabolantes para o futuro. Videogame. Coreografias ensaiadas de dança. Cotidiano com pequenos atritos, detalhes da exposição diária mútua. Olhares trocados que são frases inteiras, e uma certeza apenas: a da ligação que existe ali, intrínseca à própria existência.
Entretanto, os anos passam, e a vida muda. Cabelos perdem a cor, rugas que surgem, alguns pequenos estalos na coluna ao se levantar. Compromissos, trabalho, responsabilidades. Tudo isso surge como um muro, que aos poucos vai se erguendo nesse mesmo cotidiano, antes tão simplificado em meros devaneios imaginativos.
Os quartos, antes vivos e cheios de mundos paralelos, se tornam recantos de individualidade, e cada um vive em seu próprio novo mundo, até que chega a hora de nadar em águas mais profundas. Seja na mesma casa, ou em outro lar. Outra cidade, outro país. Peças tragicômicas que o destino não cansa de pregar em todos nós.
Percebemos aquela pequena linha de distância se construindo, e nos adaptamos à nova realidade. Tentamos não sermos estranhos uns aos outros, e tentamos manter as mesmas risadas, os mesmos devaneios, aquela pura identidade que constitui o que se construiu juntos. Mas ainda assim, são dias sem se falar, semanas sem se ver, tudo por conta desse giro impresível que é a vida. 
O mais reconfortante, porém, é que, ao haver aquele lampejo de luz que é se encontrar de novo, percebemos que, naquele olhar envelhecido, se esconde a mesma infância perdida de anos agora distantes. Como um toque de mágica, as novas personalidade moldadas pelo tempo que se passou voltam a se abraçar, trazendo em si a vontade única de compartilhar tudo que se passou naquele meio tempo. 
Talvez a vida seja mesmo sobre caminhar e aprender. Sobre saber quando partir, quando enfrentar a estrada e os próprios medos perante os desafios que srugem ao longo do caminho. Encarar noites de chuva e temporais, e aprender a construir nossos próprios abrigos. Porém, nenhum desses momentos, por mais pomposo ou cheio de glória que seja, se compara ao amor contido em uma casa que está ali, de portas e braços abertos para te receber de volta. Pois nossos lares não são feitos de tijolos e pedras. Nossos lares são sem lugar e atemporais, porque eles se encontram naqueles que desde nosso nascimento aprendemos a amar. Porque eles têm aquilo que é o mais primordial para um lar: eles são e sempre serão onde realmente nos sentimos pertencer.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Noites sem estrelas




Paixão, abnegação, alegria, euforia. Medo, ansiedade, dor, pânico. Todas são sensações que vivenciamos ao longo da vida, e a elas atribuimos valores de positivas e negativas. Vivemos temendo a dor, pois simplesmente não queremos sofrer. O que é natural e esperado de qualquer indivíduo que tenha plena consciência de si mesmo. 
Nem por isso, entretanto, deixamos de senti-la. Adoecemos, nos machucamos, acertamos o dedinho do pé naquela quina do sofá... Todas essas são de dores físicas, manifestações de algum desvio no caminho que acabamos tendo. E há também aquelas dores que não são exatamente por algo físico, mas que as podemos sentir como se fossem uma pedra dentro de nós.
Traição, decepções, ódio de terceiros... São várias as causas de sofrimento que nos afligem ao longo dessa vida. Sobretudo sofrimento causado por erros cometidos por nós mesmos, sejam eles por falta de esclarescimento ou insistência em caminhos que não são os melhores para nós. E nesses casos se trata de algo complicado de lidar, mas que no final do processo, ainda encontramos de forma mais palpável algum sentido. Aprendemos nossas lições, perdoamos a nós mesmos, e continuamos nossos rumos frente aos nossos destinos, sejam lá eles quais forem.
Entretanto, vez ou outra somos acertados por golpes que simplesmente não fazem sentido. São pedras lançadas por quem não esperamos, dardos de veneno atirados por quem mal conhecemos, ou simplesmente muros que realmente surgem do chão, bloqueando nossos caminhos. Nessas horas, tudo perde sentido. Buscamos culpados, falhas em nós mesmos, e simplesmente não há para onde apontar. Parecendo um puro ato do acaso, a sensação de injustiça corre pelas veias, e faz o sangue ferver em negação. 
Para os que são teístas, até mesmo a fé se abala. Pois a existência de alguém que cuide de todos e ainda deixe tais atrocidades acontecerem passa a ser simplesmente algo inimaginável. E continuamos na jornada impulsiva de luta contra algo que não vemos que acabou, enquanto repetimos as agressões sofridas em nossas mentes. A dor excruciante de sentir novamente cada segundo de dor infringida, cegos por simplesmente não parecer haver saída daquela espiral sem fim.
Mas se pararmos para realmente pensar sobre o que houve como sendo algo o passado que aquilo é, veremos que ao contrário do que nossa mente que ainda está fechada em defesa não é capaz de se dar conta. Veremos que mesmo com todas as consequências ruins do que houve, independente de ser justo ou não termos passado por aquilo, também fomos transformados para melhor. Nem que seja ao menos para termos mais compaixão com os outros que encontrarmos em sofrimento. Porque só aqueles que já sentiram a melancolia do pranto em soluços sabe o valor de um abraço e uma mão estendida.
Talvez, apenas talvez, parte das dores que sintamos ao longo da vida não tenha o propósito de apenas nos fazer aprender, ou mera consequência de nossos atos errôneos do passado. Talvez parte dela seja apenas uma das formas que a vida encontrou de nos ensinar a sermos mais atentos para com o próximo, entendendo que todos precisam de ajuda em algum momento de suas vidas. No final das contas, talvez haja mesmo um propósito no fato de que, mesmo quando estamos bem, e buscando apenas sermos o nosso melhor, ainda sejamos relembrados de como as noites escuras e sem estrelas são. Pois nelas todos nós acabamos sentindo a falta de algum abrigo seguro.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Ponto de retorno



Expectativas, lutas, rotina. Aquele dia-a-dia que muitos chamam de batalha diária em busca de um objetivo final, embora muitas vezes nem percebamos que já não temos mais claro qual objetivo é esse. São dias inteiros dedicados a construir o futuro que temos em mente, esboçado ou como tela detalhada, tal qual uma pintura romântica.
Nos deparamos com bifurcações, onde precisamos decidir qual rumo seguir, muitas vezes sem uma noção muito clara de onde é que iremos parar, e absolutamente nenhuma ideia do que é que iremos passar. Lutamos com tudo que temos, e muitas vezes surgem surpresas, ora boas, ora ruins, que moldam nosso sucesso ou fracasso em seguir adiante.
E nessas idas e vindas, por vezes somos pegos por buracos, armadilhas ou simplesmente por outras pessoas, que nos desviam de rota, nos atordoam, nos confundem. Começamos a duvidar de nossos objetivos, até que paramos sem perceber. O tempo vai passando, e continuamos ali sem reação. Tentamos entender os fatos, o sentido de tanta dor e angústia, e nos afogamos na ansiedade de terminar algo que já não sabemos mais como se deve fazer.
Às vezes conseguimos sair dessa imobilidade a tempo de alcançar a porta antes que ela se feche. Em outros, porém, não. As fundações do futuro desabam, e contemplamos um mar de pedras polidas espalhadas pelo chão. Seja por negligência, fraqueza, injustiça ou uma mistura de tudo isso, já não há mais como prosseguir. Surge um vazio, uma decepção, aquela cólera que consome o corpo e a alma, clamando pra que alguma justiça seja feita.
Sensações que se misturam, se multiplicam, somem, voltam. Um ciclo de tempestades que não deixa claro quando irão passar, e que exatamente por isso ressalta a urgência em se agir antes que ela nos leve embora consigo, deixando pra trás apenas restos daquilo que nos constituiu. Nossos planos, nossos sonhos, transformados em meras brasas no chão, prestes a serem sopradas pelo vento.
Forçados pelas circunstâncias, voltamos. Voltamos àquele exato momento onde estivemos na última encruzilhada, e ouvimos a vida fazer um convite silencioso a uma nova tentativa, uma nova demonstração de fé. Fé nela, em nós mesmos, fé de que em algum momento voltaremos a sentir felicidade verdadeira novamente. Não por força, ou por resilência, mas apenas por no fundo admitir humildemente que não soubemos mesmo lidar com aquele caminho. Vamos refletindo sobre cada passo dado e, ao mesmo tempo que as injustiças se desdobram sobre nossos olhos, o mesmo acontece com os erros. Aprendemos, choramos, nos revoltamos. Socamos o ar em busca de um alvo invisível, corremos até perder o fôlego. Vemos que não somos tudo isso que pensamos, e então, nem tão curados que já não doa, e nem tão destemidos que não estremeçamos com o que viremos a encontrar, nos lançamos assim mesmo, deixando que o tempo, as novas coisas boas e aquilo que ainda temos de bom nos curem por completo novamente.

sábado, 18 de junho de 2016

A dama solitária


Fluida, cristalina como a água de um rio
Bela, solitária como uma mãe que se perdeu de seu filho
Caída, sua face contemplava o amanhecer enevoado
Versos porém que se encontravam perdidos no passado

Contavam histórias antigas, histórias de amor
Não de paixões passageiras, dessas que se cura a dor
São aquelas marcas eternas, invisíveis sob a pele
Enrijecem o coração, como desde muitos dias já se assentou a neve

Estava apenas em meu caminho
Mas me surpreendi, e fiquei ali sozinho
Pois como um pobre pássaro dentro da gaiola
Ela chorava sua tristeza àquela hora

Com coração apertado
Me emudeci e pus-me ali sentado
Entre suspiros profundos
Em tristes e arrastados minutos

No peito o coração se apertou
E um nó na garganta se alojou
E eu que não conhecia sua história
Senti como minhas aquelas memórias

Senti o toque frio do vento
Imaginei desde quando ela estava ali ao relento
E ao mesmo tempo triste por em tal tristeza vê-la
Uma parte de mim não me deixava interrompê-la

Me deixei apenas escutar
Vez por outra enxugando uma lágrima que vinha a brotar
Seguindo seu compasso melódico
Que simples e puro se fazia até mesmo perfeitamente lógico

 Então sua voz parou, e de repente em mim seu olhar veio repousar
Olhar deveras triste, mas onde por um momento uma luz se fez lampejar
E sem palavras ela com um leve sorriso me contou
Seu alívio por ter alguém que a escutou
Sem mais dúvidas então, com o mesmo sorriso de volta a entregar
Minha alma foi de encontro à dela um abraço entregar

domingo, 8 de maio de 2016

Cinzas na escuridão



Lá embaixo da superfície, onde só os mais próximos são aptos a enxergar, existem todos os conflitos, desejos e sonhos que temos. Nossas dúvidas, nossa essência. Essência essa que, de tempos em tempos é colocada à prova. Somos sacudidos, abalados pelos acontecimentos trazidos pelas mãos da mudança. São convites a um novo futuro, ou meros crimes cometidos por mãos inescrupulosas e que não medem ou têm noção do alcance de seus atos. 
De uma forma ou de outra, saímos sem sermos mais nós mesmos dessa situações. E, ao sermos atingidos pelas ações alheias, surge primeiramente a sensaçãi de revolta. Aquela pergunta que nunca tem ua reposta: por quê? Nos vemos repetindo a nós mesmos sem parar, buscando um sentido para tamanha confusão.
Não percebemos que deixamos tudo que mais valorizamos de lado. Não percebemos que na verdade estamos fazendo exatamente o contrário do que clamamos ser o correto: lutar, e continuar construindo o que desejamos para nós. Continuar buscando sendo pessoas melhores. E a partir daí começa uma avalanche de acontecimentos, de discussões, de desilusões. Pouco a pouco vamos vendo o que construímos começar a ruir, e a dor se torna cada vez maior. Para alguns, essa a é linha ultrapassada do insustentável. Porque a voz doentia do convite ao desespero parece inevitável, e ela realmente começa a paralisar cada músculo do corpo. Para alguns, essa acaba sendo a linha da derrocada, aquele tão famigerado beco sem saída do destino.
Algumas vezes, porém, é justamente nessas horas, quando o que temos de mais precioso é tocado, que justamente a revolta sentida é a força para uma ação de resgate de nós mesmos. Ao ver o perigo de tudo se perder como poeira ao vento, nos vemos forçados entre desistir de vez, ou buscar forças que nem sabemos se temos para salvar o que restou. Começamos a catar os primeiros pedaços caídos no chão, enquanto avaliamos o quanto teremos de investir em esforço para voltar ao ponto onde estávamos antes de tudo acontecer.
Nesse momento, em que lentamente nos dispomos e recuperamos fôlego para voltar a agir, passamos a observar que nem tudo está tão perdido quanto parece. A despeito das óbvias lembranças que ainda insistem em saltar como fantasmas do armário, começamos a aprender a lidar com o peso daquele novo dia-a-dia. Abrimos os olhos para o presente, e começamos a fazer as pazes conosco, com os outros, com a nossa própria vida. Conseguimos esboçar novamente um sorriso que não esconde amargor por detrás, e sentimos que o mundo realmente está se movendo para uma nova volta. Voltamos a deixar até mesmo que nosso lado mais belo e gentil ressurja, sendo com os outros tudo que precissávamos ter recebido. 
Com o coração voltando ao seu ritmo normal, e abrindo-o a novas possibilidades, nos aquietamos, e percebemos que a poeira só continuava alta porque nós mesmos, em nosso desespero por sair dela, a agitávamos de volta ao ar. Já não há mais fogo, apenas cinzas do que foi queimado, que mesmo assim não era tudo que tínhamos. Saindo daquele casulo de medo e desconfiança, vemos aos poucos nossa visão recobrando sua normalidade e, surpreendemente, vemos aquelas mesmas pessoas que amamos lá, de pé, esperando apenas que nos acalmássemos para poderem continuar nos ajudando a prosseguirmos. E então, depois de tanto, sentimos de volta aquilo que já nem lembrávamos mais como era: o calmo e aconchegante abraço que finalmente nos dá uma irrefutável certeza: ainda que o caminho seja difícil, não o trilharemos sozinho. E esse pensamento já é o bastante para se ter ânimo de seguir dando os primeiros passos.

domingo, 10 de abril de 2016

Curvas do sem fim



Sabe-se lá o que são as curvas revoltas do destino. Em um ponto tudo parece chão asfaltado, e então surgem buracos tortuosos na estrada. Nós de caminhos que se cruzam, entrelaçam e não levam a lugar nenhum. Perdidos em tamanha confusão, nos perguntamos apenas por quê e para onde devemos ir, procurando por qualquer sinal da direção a tomar.
E lá paramos. Perdemos tempo pensando em passados já dados, revoltados com o caminho em si nos ter enganado, e nao vemos como é que os dias passam, nem como nós mesmos vamos envelhecendo, morrendo pouco a pouco perdidos em tamanhas dúvidas cruéis. Sem perceber, vamos virando pedras de areia na estrada, apenas olhando aterrorizados para trás.
Não é nada fácil pensar claramente quando tais situações ocorrem. Raiva, medo, angústia, tudo isso se torna um caldeirão sem fim de pensamentos a atormentar as noites sem sono, onde rápidos cochilhos levam a pesadelos com versões monstruosas dos nossos medos, sejam eles infundados ou não. Tomados pelo pânico e por traumas, vamos nos deixando ficar por ali, numa meia-existência chorosa, na qual ficamos tristes por termos sido obrigados a parar, e permanecendo parados por não conseguimos deixar o peso das mágoas para nos lançarmos ao futuro novamente.
Não saberia dizer, se perguntassem, qual a fórmula para não se afetar, não se deixar abater quando as peças cruéis do destino resolvem nos acertar. Não há como ser imune à dor. Somos de carne e osso, e nossos corações ainda pulsam e jorram sangue. Entretando, acredito hoje que, mesmo curvados perante problemas que simplesmente não somos capazes de resolver, hajam soluções que nos tirem dos círculos sem fim aos quais nos prendemos. Mesmo que para isso precisemos lembrar de quem éramos tempos atrás, e iniciar mais uma vez a jornada com a esperança daqueles tempos idos, quandos os olhos ainda se fechavam para sonhar, e não para fugir da presente realidade. Lá na felicidade das pequenas coisas que nos motivavam talvez esteja uma das chaves da superação: a esperança.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Cura



Uma explosão de cores
Um coração aberto
Pronto para novos amores
Luzes correm em volta 
Com os braços estendidos para o ar
A esperança se torna a única escolta
Pois caíram os temores
Rendidos pela harmonia
Seus lugares deram a outros senhores

Leveza como há muito não sentida
Chegou sutil, silenciosa
Quase não se fez percebida
Como a mudança de uma estação
Sem se anunciar, modesta
Faz nascer de novo flores no chão
E com lágrimas caindo pela face
Aqueles olhos antes tristonhos
Com tudo se encantam onde quer que passem

Grave como o ribombar de um tambor
Gentil como o som de uma flauta
Aprendeu que também é amiga a tão temida dor
Às palavras preferiu o silêncio
Pois sem à frente nada
Achou melhor ouvir o vento
E naquela noite tão escura
Com pesadelos vivos e medonhos
É que finalmente resgatou a alma tua

No frio acendeu pequena fogueira
Para sua surpresa a ela revelou
Que antes o abismo estava à beira
Voltou seus passos por onde vieram
Mesmo com o medo e a vergonha de admitir
Tantos equívocos para aqueles que lá atrás esperam

Vendo o quanto havia perdido
Continuou andando
Até que percebeu, que não precisava de nada daquilo
Desacelerou os passos, olhou em volta
Percebeu então que não era preciso correr
Pois o paraíso já estava à sua porta
Entregou-se então àquela paz
E sem pensar direito no tempo passando
Entregou-se à promessa de paz que somente a cura traz