terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Invisível
Imperceptível, inatingível
Incompreensível, totalmente irresistível
Além das regras e probabilidades
Além de todos falsetes e notas de viagens
Meio-dia, e o relógio a ressoar
Uma bela conversa, tempo que brinca de ser irmão
Mãos na argila, forma no pensamento
Linhas que lá no fundo que existem, mas aos olhos de ninguém ainda estão
Risos que soam sem motivo
Ver graça no nada é mesmo a melhor forma de diversão
Quem foi que contou o primeiro dia?
Acho que nem mesmo o próprio tempo dele se lembraria
Linhas que correm no papel
Essas letras ainda não são canto de cordel
Mas já são história vivida
Verdade dantes ocorrida
Significados não estão aqui para se ver
Momentos não são feitos pra se registrar
O festejo não está na frenesia
Tampouco na pomposa fantasia
Tomada de ar profunda
Um cheiro que paira no ar
Cheiro de casa, cheiro de lembrança
Fechando os olhos tudo volta ao presente
Enquanto a alma se faz efervescente
Presença em meio à solitude
E bálsamo contra uma insistente inquietude
Mesmo meros assovios no ar
Ecoam por aí, até ouvidos sedentos encontrar
E foi quando estive ali com os olhos a fechar
Pude a pura beleza face a face encontrar
Em meio a temas do dia-a-dia
Em meio a corridas de gente que ia e vinha
Pois é quando a noite sobre a Terra cai
Que a alma desperta e se mostra mais cheia de vida
domingo, 11 de janeiro de 2015
Caminhos
Uma comoção engraçada surge no peito. Uma sensação que é mistura de alegria, nostalgia, saudade que se adianta e já se faz presente, e também aquele medo da jornada que se estende. O fim que serve para um novo começo, enquanto um filme de todos os momentos volta a passar na mente. Às vezes a vida gosta mesmo de brincar com aquilo que chamamos de sentimentos.
E cada passo se torna uma decisão rumo a um futuro incerto. Uma voz triste e bonita, um poema cheio de uma essência tão sutil quando a luz das estrelas à noite. E as batidas do coração são como uma marcha, a marcha à qual nos entregamos inocentemente, cheios de fé e de esperança. Esperança de que os próximos dias serão tão cheios de amor como os que se antecederam. Amor este que, nos momentos duros de saudade, luta e amargura, possa nos sustentar, levar adiante, para um dia, mais uma vez, ser possível encontrar o caminho de casa.
Nessa tarde no porto para o além, não é possível sorrir sem que seja um sorriso amarelo. Misto de orgulho expresso naqueles rostos que se seguram para poder se fazerem felizes perante um momento que não era realmente desejado. Mas a força da união mantém todos ali, de pé, esperando que após este inverno que se aproxima, possa haver mais um verão com todos juntos à mesa, rindo de aventuras e desventuras passadas.
E enquanto o chão vai ficando para trás, em meio a nuvens brancas, o espírito se assenta em meio ao seu lugar. Confortável e feliz por saber que os céus podem ser belos e vastos, mas nada é maior que o alcance da verdadeira família: aquela que cultivamos todos os dias nos corações daqueles que decidem permanecer e torcer de verdade pelo nosso bem. Então, acenando já invisível da janela, aquela alma se lembra de uma frase enquanto uma lágrima furtiva corre rosto abaixo: "Não direi para que não chorem, porque nem todas as lágrimas são um mal".
Até logo.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Coisa simples
Dia quente. Latidos de cachorro ao longe na rua. "Entra pra tomar banho, menino!", gritava uma voz feminina do lado de fora do muro. O chiado da água subindo para a caixa d'água. Passarinhos que voltavam para seus ninhos, enquanto o sol findava a tarde e os pernilongos começavam a se ouriçar com as luzes das lâmpadas das casas.
O portão se abre, e ela entra chegando de mais um dia de trabalho. Os filhos estão lá, a continuar suas jovens vidas que ainda estão por começar. A tarde continua caindo, e a janela começa a ficar cada vez mais escura, e o azul passa de seus tons claros para uma cor mais escura, profunda e tranquila como um lago que engole agora o horizonte por inteiro.
E enquanto as crianças brincam no quintal do lado de fora, em seu universo de fantasia, o cheiro do café que acabou de ser feito começa a sair casa afora. Hora do banho. Já meio cansados, mostram todas as lições de casa da escola feitas. Um canto de igreja soa ao longe, ecoando por dentre os muros que separam as casas, trazendo a lembrança da fé que segura toda aquela gente.
Sentados à mesa, os dois irmãos ficam a falar de coisas que os adultos em sua maioria já esqueceram. Bela é a idade da infância, quando o mundo inteiro está por se descobrir. Ao mesmo tempo o pai, que em seu trabalho artesanal em casa ao mesmo tempo os olhava para que não ficassem sem cuidados, ao mesmo tempo que os iniciava em sua arte e profissão, contando também causos de seus tempos na roça de chão batido, termina mais um trabalho que será vendido.
Dentro dessas paredes de tijolos arduamente batidos, onde cada um deles traz uma história de luta e conquista, rege uma certa harmonia invisível. Uma paz que poucos no mundo conseguem um dia usufruir. E depois de a noite terminar de vir, enquanto a janta vai sendo preparada, surge um canto que emudece os dois pequenos. Uma voz que traz ao mesmo tempo beleza de uma alma simples, e a força de alguém que vai à luta todos os dias. Uma voz que, sem acompanhamentos de instrumentos musicais, voa e ressoa na alma de quem a ouve com o próprio coração. Então, distraídos novamente por alguma outra fantasia do mundo da infância, os dois irmãos passam correndo pelos pais, enquanto lá fora o mundo continua a rodopiar.
Se alguém pudesse ver tal cena, certamente sentiria um conforto dentro de si por saber que aquilo era algo que ocorria todos os dias, com a mesma naturalidade que a luz do sol volta sempre ao amanhecer. Longe das câmeras, longe dos palcos, existindo apenas por simplesmente ser uma forma dentre tantas de se viver. Quem visse aquela cena, certamente se rendiria à contemplação e diria: é, as coisas simples são mesmo as mais belas.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Heróis
Encarar a vida como ela se apresenta não é das atitudes mais fáceis que precisamos ter. Levantar todos os dias, e simplesmente ter a coragem de sair de casa para mais um dia não é um mero ato ordinário: é um ato de heroísmo. Nem sempre paramos para pensar no quão heróica é a atitude de simplesmente levar tudo à frente.
Quando pensamos em heróis, sempre lembramos de super-poderes. Pessoas com a capacidade incrível de estar no exato momento em que se fazem necessárias. Pessoas que param os vilões e salvam o dia, nem sempre a tempo de salvar os relacionamentos em seu redor, aquele famoso caso do herói que perde a amada por não poder contar o seu segredo.
Mas a verdade é que, no fundo, apenas gostamos dos heróis não porque queríamos ser como eles. É porque eles representam o que já somos sem perceber. São um versão fantasiada do que fazemos uns pelos outros quando queremos. Porque, quando destrinchamos as histórias, vemos que que heróis salvam pessoas não porque eles podem, e sim porque eles querem estar lá. E é isso que diferencia heróis e vilões em histórias em quadrinhos. A decisão de, da forma que puderem, contribuir para o bem deste mundo.
E o mais inspirador nisso tudo é que, quando conseguimos chegar à essência do que eles todos são, vemos que tudo reside em uma capacidade que está aquém de qualquer super poder: a capacidade de se colocar no lugar do outro, e entender que o sofrimento alheio é também motivo de nossa preocupação. Saber mudar de referencial é saber enxergar o mundo de outras maneiras, e é isso que heróis fazem todos os dias. Errando algumas vezes, mas erguendo a cabeça e sabendo que, seja entrando em um prédio em chamas, ou apenas oferendo um sorriso, não é a grandeza das atitudes que conta, e sim o fato de que, ao final do dia, alguém por aí está indo dormir com a esperança de que ainda há bondade neste mundo.
E isso porque os atos de heróismo se fazem no cotidiano. Certa vez, em uma dentre várias histórias que já vi sobre super heróis, uma personagem disse algo que, mesmo hoje, ressoa como a melhor explicação do porquê heróis ainda fazem tanto sucesso entre nós:
"__ Você não hesita em entrar em um prédio em chamas, nem pular na frente de uma bala, porque esse seu corpo de aço é impenetrável. Mas se salvar a pessoa que ama significa deixar seu coração vulnerável, o homem de aço não se manifesta."
No final das contas, mesmo o mais forte de todos sucumbe frente aos mesmos medos, receios e incertezas que qualquer um de nós. E talvez justamente por isso eles nos inspirem a melhorar sempre o que somos. Para exercer uma influência boa não é necessário que possamos mais do que os outros, ou até mesmo tenhamos alcançado a perfeição. Só é preciso que aceitemos o que somos, e usemos isso para extender felicidade aos que necessitam. Quando crescemos, aprendemos que, mesmo que grandes atos sejam dignos de grands heróis, não necessariamente é preciso salvar o mundo para salvar o dia.
sábado, 29 de novembro de 2014
Tempo
Invisível, implacável, imutável
Senhor da vida, da morte, faz de tudo passagem instável
Nas fotos o papel de amarelo se colore
Enquanto das montanhas para o mar
O rio da nossa vida sem parar corre
Sensível, recheado de amores, despedidas
É com acontecimentos e histórias
Que sua essência é preenchida
E desde seu início até o seu desconhecido final
Lutas serão vividas, vitórias serão adquiridas
Memórias serão construídas, e promessas serão cumpridas
Intimidador, poderoso, estranho remédio para a alma
Às vezes se faz rápido como o vento
Em outras é como o brilho do sol num mar em calma
Faz que as folhas de verde a amarelas e vermelhas venham ao chão
Faz com que a certeza se transmute em uma nova questão
Não se sabe se é testemunha ou causa das mudanças que virão
Só se sabe que sem parar suas mãos por todo lugar passarão
E enquanto bebês crescem para se tornarem fortes que amarão
Seus olhos vêem a vida como um acontecimento raro desde toda a criação
E seu prolongamento nos trás perguntas que incomodarão
Pois sabemos que para ver as respostas
Nossos olhos mais aquik não estarão
E enquanto brincamos de esquecer que nossas pegadas também se irão
Ele faz seu papel perfeito de que coisas novas sempre virão
E docemente como o abraço de um irmão
Aos recantos do desconhecido seus braços nos levarão
Deixando como certeza apenas
Que mesmo depois de nós outros tanto também se levantarão
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Aconchego
Vermelho no azul
Cores de um mesmo corpo nu
Folhas amarelas pelo chão
Dois que caminham mas têm unidas as mãos
Vento nas árvores, som de rio ao longe
Sol brincando nas nuvens
Logo logo desce abaixo do horizonte
Ruas antigas como a memória do mar
Histórias aqui vividas
Que só descobre quem aprendeu a imaginar
Calçadas de pedra, feitas com calos nas mãos
Marteladas do passado, ouço-as hoje ainda pelo chão
Ouro brilhante que aqui correu
Natureza estranha que agora nas montanhas se escondeu
E enquanto o violão toca à tardinha
Ouço uma gaita bela que lhe faz companhia
Dois que são um, um que são dois
Sons que me lembram, que amigos não se deixa para depois
Ao meu lado um velho senhor se senta
Me conta histórias antigas
Dos tempos que suas mãos eram sem rugas como as minhas
E ali fico parado a escutar
Como o tempo dá sabedoria
Àqueles que pela vida se deixam moldar
E encontram num mero bom dia a honradez de reis
Pois com um sorriso é que muito por este mundo já se fez
E mais à noite dentro da missa
Aquelas velhas senhoras em côro
"Meu Deus, que coisa mais linda!"
Penso eu enquanto sorvo toda aquela amiga realidade
E no peito já me bate aquela vontade
De tudo isso num filme eterno transformar
E ao andar de volta pela rua
No céu surge uma bela e amiga lua
Me faz lembrar das serenatas que os antigos falam
Na porta das casas daqueles a quem amavam
Quando a vida não era apenas correria
Quando em ruelas o riso de crianças de ouvia
Em memórias perdidas de uma era quase esquecida
Com saias de fita, babados a rodear
Aquelas mulatas que nos rios as roupas iam lavar
Em uma quase utópica realidade
Com todos os seus problemas e contrastes
Nasci, cresci, e aprendi uma eterna verdade
O pé no chão é também digna condição
Daqueles que bravamente lutaram para não só existir
Vencedores no final com um sorriso no rosto puderam partir
E ainda que as eras se acabem
Triunfantes poderão para semrpe existir
Pois naquelas casinhas com cheiro de lenha a queimar
Nelas foi que aprendi o que é que significa mesmo o verbo amar
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
A arte de continuar
Tem dias que são assim. Você acorda, e sai da cama para fazer o mesmo que em todos os outros. Trabalho, escola, ou seja lá o que for. Naquela vivência que se vai diariamente sem fim. Mas um dia em especial fica na memória. Nele, algo sai fora do padrão, e aquilo que conhecemos se vai. Estamos ainda ali, analisando e tentando nos encaixar na nova situação, enquanto certo e errado parecem ter trocado de lugar, ou talvez sejamos apenas nós que estamos reaprendendo no quê exatamente acreditar.
Então, apesar de toda a confusão, o atordoamento, a dúvida, se arrisca um movimento adiante. Com cuidado, porque o chão destruído parece um campo bombardeado, bombas estas que vieram de sabe Deus onde, sejam pelas peças pregadas pela vida, ou por aqueles a quem talvez tenhamos dado crédito demais. E ali vamos, acreditando, embora com o receio de uma criança diante da porta do armário no quarto que está semi-aberta.
Então percebemos que, a despeito de todo o meio hostil à volta, de todas as palavras pesadas e cheias de rancor e ódio, ou apenas de falta de empatia, é exatamente o que se deve fazer. Seguir resistindo aos ataques intermitentes, que atingem não apenas o corpo, mas também a alma, dando aos nossos pensamentos e sentimentos outras formas e tons. Começamos a aprender que para amar o próximo, é preciso enxergar as nossas próprias limitações, e então entender que, ali no outro lado do campo de fogo, existe uma alma quebrantada por mil outros ataques sem razão.
E assim vamos, unidos numa jornada rumo a sermos um alguém melhor. Não simplesmente para nós mesmos, para obtermos uma posição melhor, ou qualquer outra vã projeção passageira de resplendor terreno. É rumo aos recantos perfeitos do eterno, onde meros farrapos têm o mesmo valor e beleza que vestes de ouro. No fim, tudo não passa de mera capa transitória, com o fim de nos fazermos visíveis uns aos outros, para que aprendamos a lidar com o que temos de encarar em nós mesmos.
Então passo após passo, obstáculo após obstáculo, se vai em frente. Em geral se ouve muito das margens da estrada. E com razão, porque quem não se ocupa da própria caminhada tem tempo de ser vigilante impiedoso das jornadas alheias, fiscalizando o mundo a partir de sua própria existência e referencial. Mas ao entender o multiverso de realidades que esse mundo carrega, entendemos que estas são apenas vozes perdidas, ecos passageiros que também encontrarão seu caminho. Sem medo, sem rancor, sem violência, com o tempo aprendemos a amar também a eles. Afinal, assim como nós mesmos, são apenas crianças tentando aprender a crescer.
E aí, ao passo que tudo vai se mostrando mais amplo, também vai se mostrando mais belo e, com o frio na barriga de encarar tamanha grandiosidade, vamos pegando o costume de cair, levantar e aprender. O costume de ser ferido, perdoar e se curar. Aos poucos, bem aos poucos, a gente vai internalizando esse processo eterno de tentar, algumas vezes falhar, mas nem por isso se deixar parar. No fundo, para ser feliz, não é preciso que tudo esteja perfeito, que o dia seja de verão, ou que a casa esteja cheia. Talvez o que se precise seja apenas saber que todo o bem que fizermos ecoará neste mundo por muitos anos além da nossa própria existência e, por isso, vale a pena se pôr a movimentar.
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